As campanhas de cariz social ocupam hoje um espaço relevante na comunicação das marcas. Questões como sustentabilidade, igualdade, inclusão, educação ou apoio às comunidades passaram a integrar muitas estratégias de comunicação.
Mas associar uma marca a uma causa não é, por si só, suficiente para criar uma ligação emocional com o público.
A investigação disponível sugere uma realidade mais complexa: campanhas associadas a causas podem melhorar a perceção das marcas e influenciar comportamentos, mas a sua eficácia depende de fatores como autenticidade, transparência, relevância da causa e coerência entre aquilo que a empresa comunica e aquilo que efetivamente faz.
As decisões de compra já não dependem exclusivamente de preço, produto ou conveniência.
O Edelman Trust Barometer – Special Report: Brands and Politics 2024, realizado junto de mais de 15.000 pessoas em 15 países, concluiu que 84% dos inquiridos consideram necessário partilhar valores com uma marca para a comprar.
O mesmo estudo revelou que 60% dos consumidores afirmavam comprar, escolher ou evitar determinadas marcas com base nas posições que estas assumem.
Estes dados não significam que todas as empresas devam necessariamente posicionar-se sobre todas as causas sociais.
Mostram, sobretudo, que os consumidores estão atentos não apenas àquilo que uma empresa vende, mas também à forma como se comporta e aos valores que demonstra através das suas decisões.
A investigação académica permite responder com alguma cautela.
Uma meta-análise publicada no Journal of Marketing Research analisou 237 estudos sobre cause-related marketing — estratégias que associam uma marca ou uma compra ao apoio de uma determinada causa.
Os investigadores encontraram, em média, um efeito moderado nas atitudes dos consumidores e um efeito positivo, embora mais reduzido, no comportamento.
Isto é particularmente importante.
Uma campanha social pode contribuir para melhorar a perceção da marca, mas isso não significa automaticamente que provoque um aumento proporcional nas vendas.
O impacto depende de vários fatores.
Entre eles estão a transparência da iniciativa, a perceção de sinceridade da marca, o contexto da compra e, sobretudo, a ligação emocional que o consumidor estabelece com a causa.
Nem todas as causas fazem sentido para todas as marcas.
Um estudo publicado no Journal of Business Research analisou precisamente a relação entre uma marca e a causa que esta decide apoiar.
Os investigadores verificaram que uma elevada adequação entre a marca e a organização ou causa apoiada pode influenciar significativamente a preferência do consumidor.
Isto ajuda a explicar porque algumas campanhas são recebidas como genuínas e outras como oportunistas.
Imagine, por exemplo, uma empresa cuja atividade está diretamente relacionada com alimentação e que desenvolve um programa consistente de combate ao desperdício alimentar.
Existe uma relação compreensível entre negócio, conhecimento e causa.
Se a mesma empresa decidir comunicar intensamente sobre uma causa completamente afastada da sua atividade, sem qualquer histórico ou ação concreta que sustente esse posicionamento, a reação poderá ser diferente.
A pergunta estratégica deve, por isso, ser:
“Porque faz sentido esta marca envolver-se nesta causa?”
O storytelling continua a desempenhar um papel importante neste tipo de comunicação.
Histórias concretas ajudam a transformar temas abstratos em experiências que as pessoas conseguem compreender.
Mas uma campanha social eficaz não deve limitar-se a criar uma narrativa emocional.
Uma história ganha credibilidade quando existem ações concretas por detrás dela.
Por exemplo, em vez de uma empresa afirmar apenas que “acredita na sustentabilidade”, pode mostrar:
A emoção pode captar atenção.
A evidência ajuda a construir confiança.
Existe também um lado menos confortável neste tipo de marketing.
Os consumidores tornaram-se mais críticos relativamente às marcas que utilizam questões sociais apenas como instrumento promocional.
Dados anteriores do Edelman Trust Barometer mostraram que 56% dos consumidores consideravam que demasiadas marcas utilizavam questões sociais como uma estratégia de marketing.
É precisamente aqui que surge um dos maiores riscos das campanhas de cariz social: comunicar mais do que aquilo que a organização realmente pratica.
Uma campanha visualmente poderosa pode gerar atenção no curto prazo, mas se existir uma diferença evidente entre a mensagem e o comportamento da empresa, o efeito sobre a confiança pode ser contrário ao pretendido.
Antes de desenvolver a criatividade ou escolher os canais, existem algumas questões que uma organização deve colocar.
Deve existir uma ligação compreensível entre a atividade, os valores, as competências ou a história da organização e a causa escolhida.
A campanha deve comunicar algo que efetivamente existe.
O compromisso não deve nascer apenas porque existe uma oportunidade de comunicação.
Sempre que possível, devem existir objetivos e indicadores concretos: pessoas abrangidas, recursos disponibilizados, redução de impacto ambiental, fundos angariados ou outras métricas adequadas à iniciativa.
É importante explicar claramente o contributo da empresa e evitar exagerar o impacto da iniciativa.
Uma causa dificilmente se transforma numa dimensão credível da identidade de uma marca através de uma única publicação ou campanha.
Consistência ao longo do tempo reforça a perceção de compromisso.
Uma das principais conclusões da investigação sobre cause-related marketing é precisamente esta: a emoção importa, mas não funciona isoladamente.
As campanhas de cariz social podem aproximar marcas e consumidores quando existe uma combinação entre:
causa relevante + ação concreta + coerência + transparência + comunicação emocional.
A ausência de um destes elementos pode reduzir a eficácia da iniciativa.
As campanhas de cariz social podem contribuir para construir relações mais profundas entre empresas e pessoas, mas o seu valor não está simplesmente em associar uma marca a uma causa.
Está na capacidade de transformar valores em ações e ações em comunicação credível.
Num contexto em que os consumidores avaliam cada vez mais aquilo que as empresas representam, autenticidade e coerência tornam-se essenciais.
Por isso, antes de perguntar “como vamos comunicar esta causa?”, talvez exista uma pergunta mais importante:
“O que estamos efetivamente a fazer por esta causa?”
A comunicação deve começar depois dessa resposta.